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quinta-feira, 27 de dezembro de 2012



Metade

Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio
Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito
Mas a outra metade é silêncio.
Que a música que ouço ao longe
Seja linda ainda que tristeza
Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada
Mesmo que distante
Porque metade de mim é partida
Mas a outra metade é saudade.
Que as palavras que eu falo
Não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas
Como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo.
Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço
Que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada
Porque metade de mim é o que eu penso mas a outra metade é um vulcão.
Que o medo da solidão se afaste, e que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável.
Que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso
Que eu me lembro ter dado na infância
Por que metade de mim é a lembrança do que fui
A outra metade eu não sei.
Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
Pra me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais
Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço.
Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
Porque metade de mim é platéia
E a outra metade é canção.
E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade também.

CÂNTICO NEGRO

Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...


Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que nos guiam , mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!"





DUAS FACES

Meu coração não quer viver batendo devagar por isso a cada dia me renovo em loucas inconstantes e variadas emoções tentando encontrar respostas para os meus desejos mais eterizadores para uma sociedade medíocre e creia de clichês como a nossa. Tendo eu que participar de dois mudos paralelos e diferentes, um deles certo, mas errado e outro errado, mas intrigante e supostamente correto, tentando alternar os dois me vejo em pura revolta tentando a todo o momento viver sem, como poderia dizer: sem mistura-los um com o outro me perdendo em minhas ideologias que vivem separadas uma da outra por abismos intransponíveis. Onde tudo que um ama o outro detesta ficando clara a evidencia que eles jamais se unirão nem mesmo em convites para festas abertas a todo publico. Vivendo vou entre as duas faces transpondo esse abismo dia a dia, momento a momento, um momento triste outro sorrindo vou sangrando tentando sempre me reerguer onde todos esperam que eu desfaleça na busca de prazer ou emoções, vitória e derrotas, conquistas e percas deslumbrantes, teorias se agrupam em meu ser onde nem tudo são fantasias e desejos infames, mas também muito amor e entrega sabendo que sempre que possível eu poderei sem afligir uma das partes me deliciar com uma e com outra tendo em vista que eu sou o único habitante dos dois reinos onde tudo que eu quero é possível desde que não vá de encontro a tudo aquilo que se espera seja tolerável as leis vigentes nas duas faces. 

jailsonbilly